Paróquia citada na Lava Jato nega ter tido contato com empreiteira doadora

Igreja diz que Gim Argello ‘não mediu esforços’ para garantir arrecadação. Dinheiro seria usado para festa de Pentecostes, afirmou paróquia ao MPF.

Citada na Lava Jato, a paróquia São Pedro, de Taguatinga, no Distrito Federal, informou ao Ministério Público Federal (MPF) que nunca teve contato com qualquer representante da empreiteira OAS. O espaço declarou que chegou a contar com a colaboração de políticos para conseguir verba para realizar eventos religiosos, como a festa de Pentecostes.

A paróquia é citada em um e-mail enviado para um dos executivos da OAS pelo o presidente da companhia, Léo Pinheiro. Ele escreveu dizendo que precisava atender uma doação e pede para que sejam feitos depósitos na conta da igreja.

Após questionamentos do MPF, a paróquia respondeu que um dos membros da coordenação da festa de Pentecostes pediu ajuda ao ex-senador Gim Argello (PTB-DF), preso nesta terça na 28ª fase da Operação Lava jato por tempo indeterminado, para conseguir contribuições para o evento, em 2014. Segundo o coordenador paroquial, o político “não mediu esforços”, “procurando a empresa OAS, que se dispôs a fazer uma doação”.

O centro religioso informou que em maio de 2014 foi avisado do depósito de R$ 350 mil feito pela empreiteira. O recibo foi entregue ao MPF, segundo a paróquia. Outras construtoras também doaram dinheiro, entre elas a Andrade Gutierrez (R$ 300 mil, em junho de 2014), por meio do ex-governador Agnelo Queiroz (PT), e a Via Engenharia, citou.

Segundo a paróquia, ela sempre recebeu doações para custeio de despesas. O que sobrava era investido em um centro de evangelização.

No e-mail enviado a executivos da OAS, Léo Pinheiro diz que o pagamento seria para “alcoólico”, apelido de Gim Argello. Segundo o texto, o dinheiro sairia de uma obra da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.

A nova fase da Lava Jato, batizada de “Vitória de Pirro”, investiga a cobrança de propinas para evitar convocação de empreiteiros em comissões parlamentares de inquérito sobre a Petrobras. Argello era membro da CPI no Senado e vice-presidente da CPMI, da Câmara e do Senado.

O nome dele pareceu nas delações do senador Delcídio do Amaral (sem partido-MS) e do dono da UTC, Ricardo Pessoa. O Ministério Público Federal (MPF) diz que há evidências de que o ex-senador pediu R$ 5 milhões em propina para a empreiteira UTC Engenharia e R$ 350 mil para a OAS. Ambas são investigadas na Lava Jato.

Para o procurador da República, Athayde Ribeiro Costa, o envolvimento da paróquia ainda não foi elucidado. “Até o momento identificamos que a paróquia foi receptora dos valores por indicação de Gim Argello, e o caminho do dinheiro, se esse dinheiro foi aplicado na paróquia, se esse dinheiro foi revertido em favor de Gim Argello, ainda é objeto de investigação.”

RESUMO DA OPERAÇÃO
Objetivo: investigar irregularidades na CPI e na CPMI da Petrobras(2014).
Mandados judiciais: 22, sendo 2 de prisão temporária, um de prisão preventiva, 14 de busca e apreensão e 5 de condução coercitiva.
Preso preventivamente: Gim Argello (PTB-DF)
Presos temporariamente: Paulo Cesar Roxo Ramos e Valério Neves Campos, ambos ligados a Argello e presos em Brasília.
Conduzidos coercitivamente: Jorge Argello Júnior, filho do ex-senador Argello, Roberto Zardi Ferreira Jorge, Gustavo Nunes da Silva Rocha, Dilson de Cerqueira Paiva Filho e Marcos Paulo Ramalho.

Os três presos serão levados ainda nesta terça para Curitiba, em um avião da PF. A previsão é de que o avião saia de Brasília às 14h.

Repasses da UTC
A PF disse que há indícios concretos de que Gim tentou evitar a convocação de empreiteiros para prestar depoimento, mediante a cobrança de pagamentos indevidos disfarçados de doações eleitorais.

O ex-diretor financeiro da UTC Engenharia Walmir Pinheiro Santana, um dos delatores do esquema investigado pela Lava Jato, relatou em depoimento à Procuradoria-Geral da República um suposto acordo firmado em 2014 entre o dono da empresa, Ricardo Pessoa, e o ex-senador Gim Argello.

Pelo acordo, Pessoa não seria chamado a depor na CPI mista da Petrobras, que à época tinha Gim Argello como vice-presidente, e, em contrapartida, o empresário repassaria recursos a pessoas indicadas pelo então senador.

Ricardo Pessoa foi preso pela Polícia Federal na 7ª fase da Operação Lava Jato, em novembro de 2015. Ele é citado por outros delatores como o chefe do “Clube das Empreiteiras”, grupo formado por empresas que combinavam resultados de licitações. O empresário cumpre prisão domiciliar desde abril de 2015.

Segundo Pessoa, o então senador teria orientado que os R$ 5 milhões fossem divididos e doados aos diretórios de quatro partidos políticos no Distrito Federal:

– Democratas (DEM) – R$ 1,7 milhão
– Partido da República (PR) – R$ 1 milhão
– Partido da Mobilização Nacional (PMN) – R$ 1,15 milhão
– e Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB) – R$ 1,15 milhão

Estes partidos, juntamente com o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), formaram em 2014 a coligação “União e Força”, pela qual Gim Argello era candidato a novo mandato de senador pelo DF. O MPF diz que não há indício de que os partidos tenham participado ou tivessem ciência da origem ilícita dos recursos.

Pessoa não foi convocado pela CPMI da Petrobras, mas esteve na CPI do Senado, onde admitiu participação no cartel de empresas. “Para que UTC continuasse a prestar seus serviços à Petrobras, estava claro que teria de contribuir financeiramente”, disse à época.

Repasses da OAS
A PF encontrou, no celular de José Adelmário Pinheiro Filho (Léo Pinheiro), presidente da OAS, mensagens relacionadas a Gim Argello. Em uma delas, de 14 de maio de 2015 (data da instalação da CPI da Petrobras no Senado) e enviada a executivos do Grupo OAS, Léo Pinheiro pede o depósito de R$ 350 mil na conta bancária de uma paróquia do Distrito Federal, apontando como centro de custo a “Obra da Renest” (referência à RNEST, refinaria da Petrobras).

Segundo o MPF, o pagamento à paróquia é associado a uma pessoa identificada como “Alcoólico”, que seria o apelido de Gim Argello, por ser trocadilho com a bebida “Gim”. O apelido apareceu em troca de mensagens de Léo Pinheiro com Otávio Marques de Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez, outra empreiteira envolvida no esquema da Petrobras. Além de pagamentos feitos pela UTC e OAS, o Ministério Público apura pedidos de propina dirigidos a outras empreiteiras.

Outro lado
Procurada pelo G1, a assessoria de imprensa da OAS disse que não vai se manifestar sobre o assunto. A UTC Engenharia ainda não se posicionou. A defesa do ex-senador Gim Argello não foi localizada até o momento.

O que já disseram os investigados
Em dezembro de 2015, quando delatores ligados à UTC falaram sobre a cobrança de propina para blindar Ricardo Pessoa, Gim Argello negou ter recebido doações.

“Ninguém me procurou para blindar este empresário e, tanto o Pessoa quanto a empresa dele, foram indiciados no relatório. Na CPI, de fato nós não o convocamos, assim como não convocamos nenhum empresário. Mas todos foram indiciados”, afirmou em dezembro o ex-senador.

Os partidos citados negaram envolvimento em negociações para receber doação da UTC.

Vitória de Pirro
As investigações apuram indícios concretos de que destacado integrante da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada no Senado Federal e também da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) instaurada no Congresso Nacional teria atuado de forma incisiva no sentido de evitar a convocação de empreiteiros para prestarem depoimento, mediante a cobrança de pagamentos indevidos travestidos de doações eleitorais oficiais em favor dos partidos de sua base de sustentação.

A CPI e a CPMI da Petrobras foram instauradas em 2014 com o objetivo de investigar irregularidades dentro da estatal. Os crimes investigados nesta etapa são concussão, corrupção ativa, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Sobre o nome da operação, a PF disse que “remete a expressão histórica que representa  uma vitória obtida mediante alto custo, popularmente adotada para vitórias consideradas inúteis. Em que pese a atuação criminosa dos investigados no sentido de impedir o sucesso da apuração dos fatos na CPI/Senado e CPMI/Congresso Nacional, tal fato se mostrou inútil frente aos resultados das investigações realizadas no âmbito da denominada Operação Lava Jato”.

27ª fase
A 27ª fase da operação foi batizada de Carbono 14 e deflagrada na sexta-feira (1º). A ação cumpriu 12 mandados judiciais na Grande São Paulo.

Essa fase investiga se dinheiro desviado da Petrobras teria sido usado para comprar o silêncio do dono do jornal “Diário do Grande ABC”, Ronan Maria Pinto, e do ex-secretário do PT Silvio Pereira sobre a morte do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel, morto em 2002.

No dia 5 de abril, o juiz Sérgio Moro, responsável pelos processos da Lava Jato na primeira instância, decidiu converter a prisão temporária do empresário Ronan Maria Pinto em preventiva – ou seja, por tempo indeterminado.Já Sílvio Pereira, Moro determinou a soltura.

Fonte: G1

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