Cristovam lamenta desdobramentos políticos por voto a favor do impeachment

Em entrevista ao Correio o senador opina sobre o afastamento de Dilma, a cobrança do eleitorado e a gestão de Rodrigo Rollemberg à frente do GDF.

Após três meses de indefinição sobre o voto no processo de abertura de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, o senador Cristovam Buarque (PPS-DF) se posicionou a favor do julgamento da petista, na madrugada de ontem, no Senado. O parlamentar, no entanto, justificou que não demorou a se definir. “Só podia decidir depois da leitura do relatório.” A indefinição de voto gerou críticas e ameaças por parte de personalidades e artistas. “A que mais me doeu foi a do Leonardo Boff”, revelou. A alfinetada o irritou de tal forma que o senador utilizou o Twitter para chamar o teólogo de ‘intolerante da Santa Inquisição’. Confira a seguir os principais pontos da entrevista ao Correio, em que o congressista opina sobre o afastamento de Dilma, a cobrança do eleitorado e a gestão de Rodrigo Rollemberg à frente do GDF.

Como o senhor avalia as críticas que recebeu nas redes sociais por ter votado a favor do julgamento da presidente Dilma Rousseff?

Primeiro que não foram a partir de ontem, elas já vêm há muito tempo e eu as recebo com muita tristeza, mas, ao mesmo tempo, com a convicção de que estou prestando um serviço ao meu país. A volta da presidente Dilma, com todo respeito a ela, seria muito ruim. Ela não tem apoio parlamentar e nós vivemos em um país democrático, então temos que respeitar o parlamento. Estive diversas vezes com ela neste processo e, em nenhum momento, ela me disse como seria o governo dela. Então, votar para que Dilma volte, eu creio que é votar para que o Brasil atravesse mais alguns anos de crise profunda. Então, eu estou fazendo um sacrifício pelo meu país e, com muita tristeza, perco amigos, eleitores, leitores — tem pessoas que falam que não me leem mais —, mas estou fazendo pelo meu país.

O senhor avalia que essas críticas são só de quem defende a presidente Dilma ou isso atinge o seu eleitorado como um todo?
O interessante é que não defenderam tanto a Dilma, são contra o Temer. É raro ver alguém dizer “Volta Dilma”, em geral dizem “Fora Temer”, mas se esquecem de dizer que votaram no Temer. Temer foi eleito com a Dilma duas vezes, têm depoimentos da Dilma dizendo que essa era a pessoa que me substituiria em caso de qualquer problema, até porque ela já teve problemas de saúde e tinha gente que temia o vice ocupar o lugar dela em caso de uma tragédia de saúde, o que pode acontecer com qualquer um. E ela dizia que Temer a substituiria como se fosse ela, mais ou menos assim.

E em relação às críticas? Doeram?
A que mais me doeu foi a do Leonardo Boff. Alguns falaram da Letícia Sabatella, mas ela foi mais sensata. É duro, viu? A do Sebastião Salgado vai doer também. O Frei Betto me recomendou a não votar pró-impeachment.

Os petistas costumam fazer comparações com 1964 e falar que existe um processo de fascistização do país. O senhor viveu o golpe de 1964, qual a diferença que existe entre uma situação e outra?
Primeiro, eles não comparam ao impeachment do Collor. Depois do afastamento do Collor, não teve ninguém preso, não se fechou o Congresso, não se fechou a Justiça, a democracia continuou. Podem até dizer que o Collor mereceu o impeachment, e a Dilma, não, tudo bem, digam isso. Agora dizer que é um golpe, eu não vi nenhum tanque na rua, não vi se fechar o Congresso, ninguém vai ser exilado — talvez eu, por não poder mais andar na rua…

O senhor está sofrendo muito bullying político?
Muito, e muitas ameaças. Ninguém disse que vai me matar, mas falam “Aonde eu lhe encontrar, eu lhe cuspo. E, se encontrar suas filhas ou sua esposa — aliás, disseram o nome de minhas filhas e minha mulher —, eu as acusarei de serem parentes de um golpista”.

Aliás, há cerca de alguns meses, o senhor estava em uma livraria e foi atacado, antes mesmo de manifestar seu voto. O senhor acha que isso pode se agravar com o tempo?
Eu acho que sim, mas eu não poderia votar contra a minha consciência. Seria muito cômodo eu votar com a minha turma no Senado; Capiberibe, Randolfe, o próprio Requião, dessa turma, eu fico junto até sair, eu estou com eles, mas temos que virar a página. O governo Dilma tem que virar a página, até para ela. Ela nunca me disse isso, mas eu acho que a Dilma deve ter com todo o sentimento de história que ela tem, ficar na biografia da guerrilheira heroica e presidente de Estado destituída do que guerrilheira heroica e presidente fracassada, como eu acho que aconteceria — ou acontecerá — se ela voltar.

Mas o impeachment já não é um fracasso?
É um fracasso, mas, se a narrativa de golpe passa, ela será uma fracassada como João Goulart, um fracassado querido, respeitado, admirado. Agora, ninguém garante que passa porque o processo provará que não foi golpe, mas, para ela voltar e ficar mais três anos, eu acho que ela sairia muito mal na história. Eu estou convencido de que o PT deseja o impeachment de Dilma, porque a única chance que tem de conseguir três coisas: a primeira é colocar a culpa em Temer por tudo que fizeram de errado, já estão colocando. A segunda é ir para a oposição, que é um bom lugar para se ganhar voto. E terceiro, conseguirem a bandeira do golpe. Para mim, o Lula sabe disso há mais de um ano e eu não vou dizer que conspiram, mas eles têm que resistir para conseguir a narrativa do golpe.

Após a aprovação no Senado na madrugada de ontem, como o senhor pretende se posicionar no julgamento, até para enfrentar essa narrativa do golpe?
Se o julgamento fosse hoje, eu não teria dúvidas de que votaria pelo impeachment e acho que não acontecerá nada de diferente nestas três semanas que justifiquem uma mudança de voto. Não digo que não pode, a Lava-Jato pode trazer coisas que me levem a uma mudança de posição, ninguém sabe o que pode acontecer, mas a probabilidade é que isso continue.

Há uma situação de suspense com a delação premiada do Marcelo Odebrecht, que é vista aí como um furacão na política brasileira. Qual é a perspectiva que o senhor tem em relação às eleições de 2018, nós vamos ter uma continuidade dessa nova articulação política que assumiu o poder, ou pode ser que haja uma ruptura e que venha uma coisa nova na política…
Eu acho que é possível que surja uma ruptura, só que a coisa nova pode ser ainda pior do que a atual. Pode surgir um milagreiro, não vou dizer o nome, mas tem cretinos por aí que querem aproveitar e entrar. Tem gente que defende tortura, tem gente que defende proibir partidos na escola, tem uma direita que pode ser muito pior do que o que está aí.

O senhor está se referindo ao Bolsonaro?
Há exemplos, pode ser um desses, não ele necessariamente. Eu acho que pode surgir uma coisa dessas, mas pode surgir também um lado positivo. Alguém que consiga trazer uma alternativa para o Brasil porque a gente precisa. Eu não tenho a menor ideia de como pode ser.

O senhor acredita que se esgotou o populismo no Brasil? Porque nós estamos vivendo uma situação em que vai ficando evidente para todo mundo que a capacidade de produção do país, a geração de riqueza, de renda no país é menor do que o Estado e os governos gastam, esbanjam e se desviam também dos seus objetivos. Como o senhor vê essa questão?
Eu acho que se esgotaram muitas coisas. Primeiro, os quatro pilares do modelo social, econômico e político brasileiro, que era a democracia, do jeito que a lei está, estão esgotados. A gente vai ter que refazer, fazer uma grande reforma. Esse sistema partidário, esse excesso de partidos, essa eleição cara. Esgotou-se a maneira como vínhamos fazendo a responsabilidade fiscal, a Dilma botou isso para o ar. A gente vai ter que voltar a ter responsabilidade fiscal. Esgotou-se a transferência de renda como uma maneira de incorporar os povos, a transferência de renda é fundamental e necessária para que os povos sobrevivam, mas, para que eles sejam incorporados, não basta. E se esgotou também o crescimento econômico, baseado apenas em agronegócio, baseado em mineração, em bens primários.

São bandeiras históricas da esquerda brasileira. O senhor está dizendo que a esquerda brasileira já se esgotou também?
É, eu ia dizer isso. Agora, com esse esgotamento desse modelo, se esgotou a proposta nossa das esquerdas, nós esgotamos. Por exemplo, a esquerda que está aí não percebeu que, com a robótica, não pode continuar com uma lei trabalhista de 1930, é outra coisa que tem que fazer para defender os direitos dos trabalhadores. A esquerda precisa ser progressista, ela ficou reacionária, ela não está propondo uma nova lei trabalhista para beneficiar os trabalhadores, ela está pensando em defender a velha, não uma nova, melhor.

Esse episódio do impeachment, que impacto vai ter aqui no DF, especificamente? Eu me refiro ao senhor, seu eleitorado, suas pretensões eleitorais e também ao cenário político em geral do DF, disputas majoritárias.
Eu sou muito realista. Amanhã ou depois, pode ser outra coisa. Hoje, eu não consigo ter pretensão eleitoral, não sei. Primeiro, porque não acho que é o tema de hoje; segundo, porque eu tô perdendo tanto com esse meu voto que talvez eu não tenha viabilidade eleitoral.

Esse cenário pode levar, eventualmente, o senhor a não disputar as eleições em 2018?
Pode, perfeitamente. E isso não é uma coisa que me angustie, isso virar uma realidade, até porque eu já estou com meus 72 anos. Dá vontade de dizer que eu tenho direito de não disputar, mas não é isso que estou dizendo. Então, não analiso a minha posição. Agora, do conjunto das forças, a gente continua tendo um governador, que nós ajudamos a eleger, que, a meu ver, não está dando conta porque não quis a cooperação dos que o ajudaram, ele se fechou em um grupinho e pronto. Esqueceu-se de tudo e está se isolando. Tem um grupo que, de certa maneira, tem se formado PPS, PDT, a Rede, eles estão se juntando, estão formando uma alternativa.

Não tem medo de perder o apoio dos eleitores?
Tem o eleitor de mesa e o eleitor de urna. Na urna, não perco. Na hora H, vai preferir votar em mim ou no Fraga? No Fraga (risos).

Fonte: Correio Braziliense

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