Imprensa e Parlamento

Embora estejamos vivendo hoje no Brasil uma situação que ruma para a estabilidade, depois de mais uma turbulenta história política, percebe-se que há um estrangulamento das atividades das instituições democráticas. Temos, de um modo geral, parlamentos livres tanto na esfera federal, estadual como municipal e governantes diretamente escolhidos pelo povo, mas acontece que as instituições nacionais não têm mecanismos eficientes para atuar sobre a realidade de forma a obter, num prazo mais curto, aquelas reformas que tanto o país precisa. Começamos o ano, agora, depois do carnaval, com duas reformas da maior importância para o país: a da Previdência e a Trabalhista. Os próximos meses serão cruciais para o futuro da população e de suas instituições. E toda essa responsabilidade estará nas mãos do parlamento que ainda não conseguiu entender bem o significado das mudanças.

Se o panorama mais largo é de predominância da democracia temos, paradoxalmente, no varejo, partidos políticos débeis, pouca representatividade das maiores parcelas da população nos parlamentos e a reduzida credibilidade de instituições basilares do sistema democrático – como os poderes Executivo, Legislativo. Pesquisa publicada na última semana, pela Ipsos Brasil que é a terceira maior empresa de pesquisa e de inteligência de mercado do mundo, fundada na França em 1975, e hoje presente em 88 países, revela informações preocupantes e desconcertantes no que se refere à maneira como os brasileiros percebem a imagem dos dirigentes do País. A avaliação de 20 personalidades demonstra até que ponto o brasileiro está justa e positivamente impressionado com o combate à corrupção simbolizado pela Operação Lava Jato.

Já o Poder Judiciário, em contrapartida, está na linha de frente do que pensam os brasileiros a respeito das instituições. As três figuras mais bem avaliadas são: o juiz Sergio Moro, com 65% de aprovação, seguido pelo ex-ministro Joaquim Barbosa – que há cinco anos presidiu o julgamento do mensalão e pouco depois se aposentou –, com 48%, e a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, com 33%. Em seguida surgem os dois primeiros políticos: Lula da Silva, com 31%, e a ex-ministra Marina Silva, fundadora da Rede, com 28%.

Entrando para dentro daquilo que se convencionou chamar de “máquina administrativa” pública, o que encontramos? Organismos fracos que não cumprem suas funções primordiais – ou seja, não controlam nem fiscalizam as atividades que deveriam gerir. Já pela parte da sociedade, temos a destacar de um lado a sempre crescente e cada vez mais sufocante cultura da violência; de outro, o aumento espantoso do número daquelas que se convencionou chamar de excluídos.

Na verdade, apesar da verdadeira revolução que a Lava-jato vem realizando neste novo Brasil, ainda é muito lenta a adequação do país às mudanças marcantes das atividades empresariais ou públicas, que na última década ganham espaço significante no país e no mundo. Desse modo, por exemplo, as mudanças locais não conseguiram atrair fluxos consideráveis de investimentos externos, embora todos reconheçam as potencialidades da região. O mesmo acontece com o centro-oeste, especialmente, o Distrito Federal onde em vez de trazermos empresas para proporcionar emprego e desenvolvimento, a cada dia, empresários deixam Brasília e buscam novas alternativas e propostas, em outros Estados.

Há quem diga que o maior problema deste “déficit democrático” seja justamente a ineficácia dos órgãos legislativos. Nosso Parlamentar Distrital, por exemplo, tem gasto seu tempo em brigas políticas internas e disputas de espaço em sua volta, pouco pensando, no bem-estar coletivo da população. É inegável que os grandes temas são discutidos cada vez mais longe das casas legislativas. Segundo alguns estudiosos, não há canais desobstruídos entre a sociedade e seus representantes eleitos pelo voto. Segundo outros, o problema é ainda mais remoto – vem da falta de sistemas eleitorais que assegurem uma verdadeira representatividade.

O início do ano legislativo, na próxima semana, após o carnaval, é uma grande oportunidade de os deputados discutirem esse tema apaixonante com lideranças e a sociedade, em busca de um caminho melhor pavimentado e com expectativa de resultados imediatos. Os veículos de comunicação e, incluo nisso, os blogs e sites com sua velocidade e abrangência, podem dar uma efetiva contribuição na busca de melhores resultados das instituições para a sociedade como um todo, com menos ações políticas e mais ações de resultados.

É de extrema importância que se estabeleça de imediato um diálogo franco e aberto entre dois dos maiores atores da cena político-institucional. O momento é de grande efervescência do âmbito da imprensa (jornais, rádios, televisões) e, principalmente, nas mídias sociais, leia-se aí também blogs e sites que devem cada vez mais, ser editados com responsabilidade e credibilidade, para conquistar uma afinação mais perfeita com a sociedade, ou seja, a produção de plataformas de comunicação mais democráticas. Os jornais, blogs, sites, revistas, e a própria mídia-eletrônica, já perceberam que não podem falar em nome do cidadão se não dão espaço a este de se manifestar de forma efetiva.

De certa forma, veículos de comunicação e parlamentos têm funções semelhantes – ambos devem ser fiscais da cidadania, e ao mesmo tempo vigilantes dos interesses da sociedade. Por isso, devem buscar juntos a solução para este impasse que compromete todos os avanços inequívocos das últimas décadas. O que sugiro é tanto deputados, membros do Executivo e a imprensa acabar com picuinhas e pensar em ações que reflitam numa vida melhor para a população já tão sofrida.

Edgar Lisboa é jornalista, editor do blog: www.edgarlisboa.com.br; Diretor da Agência Digital, editor da coluna Repórter Brasília, veiculada no Jornal do Comércio e na TV Digital News. Foi Diretor-Executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e representante no Brasil, dos Repórteres Sem Fronteiras.

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