2018: eleitores em busca de um “salvador”

A polarização entre PT e PSDB parece ter ficado no passado. Ao que tudo indica, o próximo pleito, em 2018, guarda semelhanças com a histórica eleição da qual Fernando Collor, um outsider à epoca, saiu vencedor entre 21 candidatos que disputaram a legitimidade popular. Assolado pela hiperinflação e um presidente impopular (José Sarney -PMDB), o Brasil de 1989 ansiava por um “salvador” que o conduzisse à saída da crise. Agora, com 14 milhões de desempregados, uma forte descrença na política e um presidente (Michel Temer – PMDB) com 95% de rejeição, o país vê renascer um debate semelhante, com muitos atores políticos, outsiders aos montes e, novamente, enormes incertezas.

Conforme as últimas pesquisas, despontam como presidenciáveis o ex-presidente Lula (PT), o deputado Jair Bolsonaro (PEN), a ex-senadora Marina Silva (Rede), o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD) e o senador Álvaro Dias (Podemos). Contando com os candidatos que costumam ficar com 1% dos votos, a próxima eleição terá mais de 10 postulantes, contemplando todas as cores do espectro político, o que denota que não há consenso sobre o caminho que o país deve seguir após o governo Temer. A população espera, antes de tudo, a retomada do emprego, o controle da inflação, o combate à corrupção e a diminuição da violência.

Primeiro lugar nas pesquisas desde que o “lulismo” se consolidou em 2006, Luiz Inácio Lula da Silva vem controverso e sem favoritismo, dividindo a opinião de leigos e especialistas. Na visão do cientista político David Verge Fleischer (UnB), é preciso ponderar a candidatura do petista em dois cenários, a depender da resposta do Tribunal Regional Federal (TRF4). Se viabilizar a candidatura, ele será fortemente agredido no debate e perderá potencial, apesar do esforço na Caravana pelo Nordeste, sua maior base eleitoral. Caso seja preso, se tornará um “mártir” e usará o fato para alavancar o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), para fazer jus ao seu espólio político.

Segundo o cientista político Rudá Ricci, a polarização entre PT e PSDB morreu porque os dois partidos se enfraqueceram nos últimos anos. “O PT perdeu muito espaço. Em Minas Gerais – reduto de Aécio -, os tucanos perderam metade das prefeituras. E,em São Paulo, os petistas o chamado ‘cinturão vermelho’ em São Paulo. Isso compromete a atuação das siglas. O PSDB é o mais afetado com o governo Temer, porque é o partido que a população mais relaciona a Temer. Eles não chegam a um consenso sobre a permanência na base aliada e o próprio Doria aumentou sua rejeição nas últimas pesquisas”, diz Ricci.

O debate do liberalismo econômico também pode prejudicar o PSDB. Em 2006, contra Lula, Geraldo Alckmin trouxe a pauta das privatizações para o debate eleitoral, o que acarretou uma inusitada perda de votos do tucano entre o primeiro e o segundo turno. Rudá lembra que “os políticos brasileiros podem não ter aprendido a realizar uma campanha êxitosa, mas aprenderam a desconstruir os adversários”.
Se colocando com alternativa à esquerda, Ciro Gomes tenta capitalizar os eleitores insatisfeitos com o petismo.

Para tornar seu projeto mais competitivo, ele já propôs aliança com Marina Silva, que conta com cerca de 14%. Tentando conciliar o afago ao mercado e à população, Ciro tenta se diferenciar no “quesito honestidade” e pela experiência administrativa à frente do governo de Fortaleza e do Ministério da Fazenda. Outrora descontente com o PSB, o cearense agora busca uma reaproximação para fortalecimento.

Outsider
Por outro lado, candidatos como Álvaro Dias, Bolsonaro e Dória reforçam uma característica peculiar de 1989: o outsider, aquele que não pertence à casta dos políticos tradicionais – à maneira de Collor, o “caçador de marajás”. Assim, Bolsonaro tem aumentado sua popularidade país afora ao se opor à política tradicional. Enquanto seu apoio nas redes sociais cresce em proporção geométrica, pregando que “bandido bom é bandido morto”, seu cabedal de partidos segue estagnado. Seu discurso radical e incorruptível não se aproxima da flexibilidade de legendas maiores da centro-direita, como PSDB e DEM.

A crescente violência de candidaturas mais autoritárias, o que Bolsonaro incorpora bem, uma vez que se identifica com a “bancada da bala”, com o regime militar de 64 e uma agenda ultraconservadora. Uma pesquisa do DataPoder360 aponta que 65% da população votaria em alguém que nunca foi político, tal qual o presidente americano Donald Trump. Doria materializa essa tendência liberalista, onde a figura do político dá lugar ao gestor, aquele que conduz a máquina pública como uma empresa. Há dez meses como prefeito, ele tem percorrido o Brasil visando tornar seu nome mais conhecido e, assim, se traduzir na “negação da política” e no candidato “anti-Lula”. O analista político Alberto Carlos Almeida considera que Doria tenha uma semelhança com a ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

“Eles têm estilos diferentes, mas, no conteúdo, ambos demonstram não prezar o mundo político”, avalia. O cientista se refere aos episódios em que Doria confrontou correligionários como Alberto Goldman e Aécio Neves na imprensa, fazendo seu carisma diminuir perante a opinião pública. “Não será fácil para seus correligionários continuarem apoiando um prefeito que os critica publicamente, ao mesmo tempo que é mal avaliado pelo eleitorado. Quanto a ser candidato à presidência pelo PSDB, isto já deixou de ser uma possibilidade concreta”, diz.

Mesmo com um vasto currículo, em cargos eletivos, o senador Álvaro Dias aposta nessa estratégia de outsider para se reconfigurar na disputa. O paranaense pinça o conceito de “partido-movimento” que levou ao poder o presidente francês Emmanuel Macron. Não se identifica com esquerda nem direita e tem como pauta a democracia direta; assim como Doria e Henrique Meirelles, Álvaro defende para o Brasil o liberalismo econômico.

Economia
É consenso entre os analistas que o discurso liberalista da centro-direita, com a defesa do Estado mínimo, não deverá emplacar em 2018. “O discurso liberal sempre existiu. Foi assim contra Getúlio Vargas, o Collor se elegeu com esse discurso, o Fernando Henrique também. A crise econômica traz o liberalismo de volta e, com o governo tachado de corrupto, fica mais fácil de convencer as pessoas sobre a necessidade de enxugar o Estado”, explica o economista Guilherme Santos Mello, da Unicamp.

Apesar da crise, o brasileiro é profundamente dependente do Estado. “As pessoas não querem o fim. Elas querem o Estado mais eficiente, mais honesto. Esse discurso de privatizações conquista aqueles que não dependem do Estado, as classes alta e média. Se você olhar o Estado brasileiro, ele não é grande. Ele é ineficiente, por isso é precário. Tem setores inchados que não são prioritários, por isso gera insatisfação”, esclarece o economista.

Guilherme Santos Mello reconhece a necessidade de cortes para tornar o governo mais eficiente, o que coaduna com o discurso de Ciro Gomes, de conciliar economia e política social. O cearense trabalha com a perspectiva de popularizar o debate da Reforma da Previdência para alcançar um denominador comum. Pivô desse debate, Henrique Meirelles tentará usar o seu trabalho à frente da Fazenda para sensibilizar o eleitorado sobre a retomada do crescimento. Caso até 2018 consiga obter números convincentes, Meirelles se tornará competitivo, embora seu nome só seja mais conhecido na classe média e na elite.

Autoritarismo
A pesquisa “Medo da Violência e Apoio ao Autoritarismo no Brasil”, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, demonstra que o brasileiro tende a apoiar projetos autoritários. Isso se deve aos altos índices de criminalidade, com 60 mil mortes intencionais por ano – dado que favorece candidaturas como a de Bolsonaro, cuja agenda sublinha a repressão aos criminosos e menos apreço à democracia.
Encomendada pelo Datafolha, a pesquisa demonstra que quanto menor a escolaridade, maior a defesa ao autoritarismo. Pessoas abaixo de 24 anos e acima de 45 também estão nessa faixa. E o Nordeste é a região onde mais predominam os defensores do autoritarismo como política de Estado. A maioria das pessoas que respondeu ao questionário afirma temer a violência.

Nesse contexto, existe uma renovada desconfiança nas instituições brasileiras. Levantamento da Fundação Getúlio Vargas indica que apenas 25% da população confia na polícia; 29%, no Judiciário; 11%, na Presidência da República e 10%, no Congresso. A insegurança, segundo o professor da USP e filósofo, Vladimir Safatle, é um fator que influencia no ceticismo à democracia. “A decomposição dos estados sociais, a insegurança, o medo, a violência e a imigração criaram uma onda no mundo inteiro de projetos proto-fascistas pregando que a gestão não deve respeitar a ordem institucional”, avalia.

Safatle justifica o florescimento dessa tendência num contexto de democracias fracas que carecem de poder decisório e as instituições são incapazes de realizar o que prometem. Contudo, o filósofo acredita que é possível fazer a crítica à democracia liberal sem recorrer a soluções de governos autoritários. Uma forma de retomada é entender que reformas são necessárias para garantir representatividade.
“O Brasil saiu da ditadura de maneira aberrante. Desde 1985, o que o país tem feito é a gestão de um colapso iminente”, verifica Safatle, apontando que o entendimento entre esquerda e direita em torno de um estado de bem-estar social é a possibilidade de uma democracia estável.

Fonte: Folha PE

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here