Os primeiros ensaios para as eleições de 2018, por Luis Nassif

Daqui até o início da campanha eleitoral, muita água irá rolar. Não se descarta a possibilidade de um político outsider. Mas, a cada dia que passa, essa hipótese se estreita pela impossibilidade de construção de imagem a tempo de chegar pronto até as eleições, mesmos nesses tempos de redes sociais. Embora não se possa descartar figuras televisivas, como Luciano Huck.

Hoje em dia, as candidaturas postas estão quase todas sob o fogo de uma polarização intensa.

Aproximando-se as eleições, é possível uma convergência para o chamado centro democrático.

Têm-se, portanto, três campos de polarização:

Campo 1  – O conservadorismo, sendo disputado por Geraldo Alckmin, Bolsonaro e João Dória Jr

Campo 2 – A esquerda, não se descartando candidatos do PSOL.

Campo 3 – O candidato do centro democrático.

As seis candidaturas até agora aventadas – Lula, Ciro Gomes, Fernando Haddad, João Dória Jr, Bolsonaro e Geraldo Alckmin – podem ser divididas de acordo com duas categorias.

Primeira categoria – polarização x consenso.

No grupo da polarização aqueles candidatos cujas campanhas despertariam inevitavelmente o ódio de classe. São os candidatos que disputarão o Campo 1 e 2.

No grupo do centro, os que tentam se sobrepor ao Fla x Flu, definindo novas formas de discurso e prática: modernos x atraso, gestores x velha política, visando ocupar o Campo 3.

No grupo da polarização, por razões diversas entram Lula, Dória e Bolsonaro.

No governo, a grande virtude de Lula foi a da conciliação, juntando todos os setores debaixo do seu guarda-chuva. Ao mesmo tempo, foi sua grande fraqueza, pois impediu de atacar pontos estruturais de estrangulamento, como as políticas de câmbio e juros,  a mídia e o poder das corporações públicas e do Judiciário, mesmo após a campanha do “mensalão”. Essa falta de atuação enfraqueceu o Executivo, deixando-o à mercê do PMDB.

Foi uma construção sem alicerces sólidos, que dependia fundamentalmente da bonança econômica e da capacidade política do presidente. Quando sumiram do horizonte as duas condições, o edifício veio abaixo.

Enquanto vigoraram, permitiram a Lula apresentar, pela primeira vez na história, o desenho de um país moderno, com políticas públicas relevantes, inclusão social e política.

Saindo candidato, mata a possibilidade da candidatura de centro. Juntará o Campo 2 e o Campo 3.

Já o Campo 1 – do conservadorismo – será disputado por Bolsonaro, Dória e Alckmin.

Dos três, Geraldo Alckmin representa o padrão de conservador apreciado pela classe média: duríssimo na pessoa jurídica (vide sua PM), educado e cordato na física.

Lançando-se candidato, a possibilidade maior é que engula Bolsonaro e Dória – se este não morrer politicamente pelo caminho.

No Campo 3, há as figuras de Ciro Gomes e Fernando Haddad, um ligado aos temas.econômicos, outro às políticas públicas com viés social, ambos representando o primado da racionalidade contra a velha política, mas ambos distantes da militância de esquerda e dos movimentos sociais – Ciro entrando em conflito, Haddad admitindo a contragosto.

Ciro faz a crítica do modelo por dentro.

Tenta retomar a antiga aliança entre a centro-esquerda e setores da economia real. É dele a crítica mais certeira contra o lulismo e contra os vícios do atual modelo cambial, monetário e fiscal, e o modelo do presidencialismo de coalisão. Seria um radical de centro, se me perdoem o paradoxo, um candidato de guerra, sim, mas despido dos aspectos de luta de classe que apavora a classe média e os pequenos empresários.

Haddad representa a gestão com cunho social. Foi o grande formulador das melhores políticas públicas do governo Lula, provavelmente o melhor gestor público do pós-democratização. Na Prefeitura, fez uma gestão baseada nas melhores práticas internacionais, nos estudos acadêmicos aprofundados, esmerando-se por mudar estruturalmente o futuro.

Seria, em tudo, o representante de uma elite supostamente modernizante que existe em São Paulo. Foi derrotado pelo antipetismo e por uma campanha negativa incessante da mídia paulista, superficial a irresponsável.

Segunda categoria – a imagem pública

Nesses tempos de redes sociais, a imagem pública é tão ou mais importante que a explicitação de propostas.

Nos grandes momentos de virada das ideias – como ocorreu nos Estados Unidos de Franklin Delano Roosevelt ou, no seu oposto, o país de Ronald Reagan – levou quem se antecipou aos movimentos de aggionarmento, não tendo receio de encarar a baixa receptividade inicial de suas propostas. Vão se formando ventos, que se avolumam até virar furacão. E aí, o Estadista estará pronto para cavalgar os ventos.

Obviamente há muito mais casos de políticos que cavalgaram as melhores propostas, que anteciparam as novas ideias e perderam o bonde.

Dos candidatos, Lula não conta: é ponto de referência, o astro-sol político em torno do qual se organizam todas as forças, a favor e contra, o amor e o ódio em estado puro.

Dória é o camaleão com dentes de jacaré. Conseguiu em pouquíssimo tempo, com vento totalmente a favor, com a mídia e os partidos conservadores procurando seu campeão branco, queimar na largada.

Abandonou a cidade, traiu seu criador, condenou Aécio e depois apoiou Aécio, ofendeu adversários políticos com palavras de baixo calão, e passou uma imagem de ambição desmedida, sem nenhuma visão estratégica. Um presidenciável que anda a reboque do MBL é demais!

Já Bolsonaro é coerência em estado bruto, um rinoceronte predador desde os tempos de Exército. Pela incoerência é que não se perderá.

Alckmin é o conservador civilizado. Fala pouco, pensa pouco, é discreto – e conservador ao extremo – o que o aproxima bastante do cidadão médio, incomodado com a selvageria de Bolsonaro. Mantém a imagem de médico de família, conseguindo encobrir até a do governador frio até o limite da crueldade, cujo exemplo mais ostensivo é sua Polícia Militar.

Já Ciro e Haddad, cada qual com seu estilo, são exemplos de coerência, Ciro rompante, Haddad sóbrio, mas ambos com solidez nos argumentos e na coerência.

Sem nenhuma adjetivação, não se vislumbra nas entrevistas ou artigos de Haddad, nenhuma concessão ao conservadorismo ou deslealdade a Lula.

Contra Ciro, conspira seu temperamento, ao mesmo tempo seu bem e seu mal. Contra Haddad, a falta de envolvimento político maior. De um influente ideólogo do PT, ouvi logo após as eleições: “ O povo percebe quem não gosta dele. E Haddad não gosta de povo”. Referia-se à falta de vontade de Haddad de emular o político tradicional, não às suas políticas efetivas.

Haverá tempo até o primeiro semestre do ano para que se defina o jogo, com Lula ou sem Lula.

Fonte: GGN

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Consultor em Marketing Político; especialista em pesquisa de opinião pública; autor do Blog do Sandro Gianelli; escreve a coluna On´s e Off´s, de segunda a sexta, no Jornal Alô Brasília; apresenta o programa Conectado ao Poder, aos sábados, das 12h às 14h, na Rádio OK FM. É presidente da Associação dos Blogueiros de Política do Distrito Federal e Entorno.

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