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omo a primeira-dama francesa construiu sua imagem e a do seu marido, o presidente Emmanuel Macron, que terminou o ano de 2017 com uma taxa de popularidade de 52%, uma das mais altas do seu mandato.

No mundo da política, nada se cria, tudo se transforma. A premissa adaptada da famosa lei de Lavoisier cai como uma luva para a primeira-dama francesa Brigitte Macron, 64 anos. Muito mais do que a mulher do presidente Emmanuel Macron, ela é uma das articuladoras de sua campanha e da construção da imagem do casal, fundamental para a vitória do jovem chefe de Estado, de 40 anos.

“É uma campanha que eles fizeram juntos”, descreve Philippe Moreau-Chevrolet, cofundador da agência MCBG Conseil, especialista em marketing político. “Na França, e na política de um modo geral, as campanhas são feitas pelo casal. É preciso tranquilizar o eleitor em relação à capacidade do candidato de se comprometer com alguma coisa, de amar, no sentido literal”, explica.

Isso mostra “o lado humano” do futuro estadista, diz o consultor francês. “Esta ainda é uma maneira antiga de fazer política, do modelo do homem, casado, que ocupa um cargo eletivo. É um esquema arcaico, mas que ainda é dominante nas democracias ocidentais”, continua o especialista, “principalmente em regimes presidencialistas”.

Quebrando paradigmas

Macron não foge à regra, apesar do casal quebrar alguns paradigmas do conservadorismo dominante – o presidente é 24 anos mais jovem do que Brigitte, com quem se encontrou ainda adolescente. Para o consultor, essa diferença de idade era considerada como um ponto fraco, mas acabou sendo utilizada como um coringa na campanha do presidente francês, o que demonstra a inteligência do casal presidencial.

“Brigitte Macron foi criticada no início por seduzir um adolescente”, diz. Fofocas também circularam na França sobre a possível orientação sexual do presidente, que se refugiaria em um casamento de fachada. “Até mesmo Sarkozy (ex-presidente francês), disse publicamente em uma entrevista que Macron era andrógino, nem homem, nem mulher”, lembra o consultor. O boato, surgido em fevereiro, ganhou as páginas dos jornais franceses e visava desestabilizar o candidato às vésperas das eleições.

Segundo Chevrolet, em termos de comunicação política, essa é uma maneira de enfraquecer a imagem de um líder, o acusando de não ser suficientemente “viril.” “Apesar de todos esses rumores, eles gerenciaram muito bem a situação. Fizeram uma grande campanha com a revista Paris Match, de construção de imagem, com os dois na capa, e Brigitte Macron de maiô na praia, mostrando seu lado sexy, em forma, de mulher francesa e elegante”.

Um golpe de gênio, explica ele, concebido por Mimi Marchand, dona de uma agência que gerencia a imagem das personalidades públicas e negocia reportagens com as revistas de celebridades francesas. Influente personagem dos bastidores do “Tout-Paris”, como é chamada a elite da capital, ela é próxima do casal Macron, com quem mantêm uma relação privilegiada, e teve um papel fundamental na criação da imagem pública do presidente francês.

A revista Paris Match foi escolhida porque circula no interior do país, e influencia o voto dos habitantes que vivem em uma realidade bem diferente da capital. “O que é interessante, no caso dos Macron, é que a diferença de idade se transformou em uma vantagem, um argumento de marketing, principalmente em relação ao eleitorado feminino e mais velho. Na França, os candidatos são eleitos pelos maiores de 50 anos, idade de 80% das pessoas que elegeram Macron”, destaca. “Brigitte Macron ajudou a conquistar esses eleitores”.

Tirando a poeira do palácio

Oito meses depois de chegar ao poder com seu marido, Brigitte Macron agora trabalha para deixar sua marca no palácio do Eliseu, que aos poucos se transforma em um pequeno museu nas mãos da primeira-dama, como destacou recentemente o jornal Le Monde.

Em contato com diretores de museus parisienses, diz o artigo, ela pensa em trazer temporariamente obras para embelezar as paredes do palácio presidencial. Saraus e concertos também são programados semanalmente no local, rompendo o ar austero que se respira nos corredores da sede presidencial.

Chevrolet enxerga esse dinamismo como a reação de Brigitte Macron a uma espécie de “frustração” comum a muitas primeiras-damas dinâmicas e influenciadoras. “Quando elas chegam ao poder, percebem que estão dissociadas das grandes questões do Estado. Brigitte Macron é alguém que pensou na campanha presidencial e levou um candidato ao poder. Alguém que tem essa inteligência, naturalmente questiona sobre seu próprio papel”, diz. “Ela busca constantemente novos espaços”, declara.

Ele cita exemplos de outras primeiras-damas influentes. É o caso de Bernadette Chirac, que se tornou uma peça fundamental no xadrez político francês, salvando o segundo mandato de seu marido, Jacques Chirac (2002-2007). “No caso de Brigitte, acredito que ela é um dos principais motores de Macron”, conclui o consultor francês.

Fonte: As vozes do mundo